"Hoje acordei e me deparei com uma manchete de uma coluna da Revista Veja, segundo a qual, Lula, por “trucidar” a língua portuguesa, não mereceria ganhar o titulo de honoris causa, oferecido pela Universidade de Coimbra, no dia 30 de março de 2011.
Eis o link: (http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/a-trinca-que-trucida-o-portugues-pode-tirar-o-sono-dos-professores-de-coimbra/)
Muitas pessoas que pensam de forma semelhante à da Revista Veja podem estar se questionando quão absurdo foi ter sido concedido, de acordo com o texto da coluna de Augusto Nunes, “o título de doutor honoris causa a um homem que nunca leu um livro nem sabe escrever”.
Gostaria de tornar pública minha indignação em relação a esse amontoado de preconceitos de toda ordem veiculados naquele pequeno texto daquela coluna. Encaremos os fatos e assumamos que esse homem que, segundo a coluna da Veja, “nunca leu um livro nem sabe escrever”, foi o presidente que mais apoiou financeiramente a educação no Brasil de todos os tempos.
Vamos fazer um pequeno esforço para nos lembrar – e nem faz tanto tempo assim – que durante a era FHC os professores universitários da rede federal, que, além dos mestrandos e doutorandos, são os pesquisadores do Brasil, ficaram 8 – OITO – anos sem 1 centavo de aumento.
Durante a era Lula, investiu-se em melhores salários, no aumento do número das Universidades Públicas, no aumento do número de bolsas de mestrado e doutorado, no aumento das bolsas do Prouni, entre outras ações que visaram à melhoria do sistema educacional do Brasil e, de forma metonímica, do Brasil como um todo.
Já FHC, doutor, último catedrático da USP e ex-professor da Sorbonne, ofereceu tão somente condições de sucateamento com vistas à privatização das Universidades Públicas. Imagine como seria um país que não produz conhecimento, que não faz pesquisa? É público e notório que a grande maioria das universidades particulares visam apenas ao lucro e são raras as que tem um programa de pesquisa ou de extensão.
Por fim, a afirmação da coluna da Revista segundo a qual Lula “trucida” o português revela uma ideologia segundo a qual – e infelizmente ainda muito corrente no imaginário popular – o português de Portugal é mais puro, melhor, mais correto que o do Brasil por se aproximar mais da gramática normativa. Vejamos um trecho primoroso da coluna de Nunes:
“Faz mais de 500 anos que o idioma oficial do Brasil chegou a bordo das primeiras caravelas. Mas os governantes da antiga colônia ainda não aprenderam a falar português.”
Àquele texto, segundo o qual Lula “trucida” o português, ainda subjaz um preconceito maior ainda: se o português do Brasil é inferior ao de Portugal, o português do nordestino é o pior do pior, já que o Nordeste é uma região historicamente estigmatizada no Brasil.
Acontece que a gramática normativa foi construída sobre as normas do português de Portugal e não sobre as do português do Brasil. E mais: as normas gramaticais nada mais são que a escolha de um certo tipo de variante, baseadas em alguns textos literários de uma determinada época. Portanto, nada mais arbitrário que a gramática normativa. Eu, como linguista, duvido muito que qualquer brasileiro, ou qualquer jornalista da Revista Veja, siga cegamente todas as regras dessa gramática, o que seria, no mínimo, ridículo.
Seguramente os professores de Coimbra, uma das universidades mais antigas do mundo, têm uma visão muito mais ampla sobre conhecimento, política e sobre a própria língua portuguesa que aquela restrita e distorcida visão de mundo que se apreende daquele texto infeliz."